CANETAS ENGATILHADAS


 

Sigo correndo dos boçais
Que insistem inutilmente
... em nos furtar a respiração ou o livre arbítrio
Vou e volto   ainda que em pensamento...
... Não vão conseguir controlar
Sejam expressões faciais...
...Ou meus textos telepáticos...
... versos inigmáticos
Ladrões de brisas de inverno!
Não vão nos tirar o belo.
Quer saber? Vão pro inferno!
 
Suseli Honório


Escrito por Thelma e Louise às 10h44
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MICROCONTO

Suas decisões foram acertadas. Sim. Tentava se convencer e sentir alívio. Fez o certo. E pagou o preço por isso. Nada mais a revelar. Nada mais a lamentar. Só isso. Como se bastasse à sua vida inteira.
KG


Escrito por Thelma e Louise às 15h43
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REVENDO AS LETRAS

 

 

INVENTÁRIO

 

o que restarão nestas gavetas entreabertas?

uns e outros amores bem ou mal-resolvidos,

fotografias impressas em papel couché,

a velha garrafa com dois dedos de rum,

o rótulo carcomido do Carta Oro,

um rabisco amassado, embolorado,

traçado na bolacha da cerveja quente

ou em papel de pão,

marcado pela mão suada e trêmula

do amigo embriagado,

de algum amigo que já não é

– que ainda o seja, oxalá o seja,

ainda mais trêmulo, ainda mais bêbado.

 

o que ficarão, Deus meu, nestas gavetas silenciosas?

o cachecol ton sur ton do inverno burguês?

as luvas dantes presas em bolsos rotos?

o anel perdido em algum banheiro sujo,

no meio-fio,

no mau tempo,

o dedo a apontar o outro lado da rua?

quantas cadeiras a acomodar estas nádegas quentes, Deus?

quantos papéis impressos,

quantas divagações em transe,

quanta lucidez de se supor em si bemol

– sempre sempre alto e tão longe?

por quais mapas serão pontuados meus passos?

em quais espelhos perder-se-ão tantas faces incrédulas?

em quantas identidades oficiais será nebulizado meu eu?

meu íntimo formatado,

diagramado,

presos nestas gavetas,

no cheiro da madeira?

 

o que topará o pé nesta quietude

neste espaço sem flashs, nem falas,

guiado pelo som quebrado de uma voz extinta

– supostamente minha?

trechos, disparos, escarros

um exame médico,

uma chapa,

o boletim da escola,

a carta amassada,

o arrependimento,

o descaso,

o riso,

o escárnio,

o que poderia, por Ti, Deus meu,

trazer luz a uma existência de trevas?

 

No sem fim, uma pergunta:

uma maçã no escuro:

uma vida fragmentada.

 

maio?

sim, não se deve esquecer:

ainda é tempo de morangos

– em meio a vislumbres, brindaremos.

 

 

KG *2007


Escrito por Thelma e Louise às 18h15
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SOBRE DRAGÕES

Porque em tempos de ressaca, as letras fogem da rebentação.

  


 

OS DRAGÕES NÃO CONHECEM O PARAÍSO

 

Tenho um dragão que mora comigo. Não, isso não é verdade. Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu.

Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele estava comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs da ausência dele, pensei assim: os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderam no caos da desordem sem nexo.


Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo; repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.


Essa imagem me veio hoje pela manhã quando abri a janela e vi que não suportaria passar mais um dia sem contar essa história de dragões. Gosto de dizer, tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade.


Como eu dizia, um dragão jamais pertence a nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja um unicórnio, salamandra, elfo, sereia ou ogro. Eles não dividem seus hábitos. Ninguém é capaz de compreender um dragão. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro) sempre batem a cauda três vezes, como se estivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja a sua maneira desajeitada de dizer: que seja doce.


- Caio Fernando Abreu -

 



Escrito por Thelma e Louise às 16h26
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NO TITLE

 

Naqueles dias, pensava na plenitude dos extremos. Diziam, de tempo em tempo, que fosse quente ou frio, pois o morno se regurgitaria. Era de um quente que flambava dentro, no mesmo calor que em atrito com a frieza de falsa porcelana resultava na aparência tépida. Assim, era pretensamente mediana. A que não era linda, nem feia; nem pobre, nem rica; nem engraçada, nem mordaz; não inteligente a ponto de ser a primeira, mas dificilmente entre os últimos; faltavam-lhe atributos que concedessem adjetivos – ou eram muitas as médias. Era mais um nome na lista. Quase sempre um único, que quase nunca se fazia notar. A voz que não se ouvia, o timbre abafado pela arritmia e o coração sempre na boca. Estava sempre presente, em teoria. Era grave, soturna e seguia mansa, como os mornos se apresentam, em linearidade maçante. Sim, estava no caminho do meio termo e não havia maior ou mais eficiente camuflagem. Escudo. Os músculos ligeiramente palpitantes não se mostravam e, a quem a olhasse, viam-se apenas os olhos de um castanho tão castanho quando se pode receber de herança. O olhar, sempre além. Corpo, um que quase não se tocava, mas a alma em constante ebulição, envolta na polidez e em timidez aflitiva, aquela visão distanciada e o ar blasé – indiferença, disfarce. Defesa. Era pura humanidade – demais à sua própria medida. O perfume masculino, viril, suficiente para encobrir o cheiro do seu medo, a escapar por poros dilatados. O abdômen sempre contraído, a espinha sempre ereta. Tensão. Cavalo de batalhas perdidas a passadas curtas e rápidas, em cascos vacilantes. Os dentes à mostra, mas a tristeza e a melancolia em sobrancelhas arqueadas. Era média: sua classe, seu gênero, sua existência quase limpa, portanto que não era suja - tampouco imaculada. O batom roxo, tantas e tantas vezes em lábios apertados; a sombra púrpura, as pálpebras inquietas – e era apenas uma criança, que ambicionava ser ignorada. Os inúmeros tapas e os socos e os pontapés e os gritos em defesa de sua inegável fragilidade – o corpúsculo em desacordo com seu espírito revolto, encarcerado na mediocridade daquela vida (a que não se escolhe). Entre talentos e inseguranças, a saudade de um tempo que nunca viveu. Ou viveria. E era apenas uma menina. Só. Escondida em cômodos escuros, fuçando gavetas vazias, cheirando mofo, cruzando vias entre pensamentos cruéis. Martirizada, agoniada. E, sobretudo, só. Mas era uma menina. Apenas, em sua aparente trivialidade, contra o resto de um mundo.

 

(KG * Feb/08)



Escrito por Thelma e Louise às 17h13
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