INVENTÁRIO
o que restarão nestas gavetas entreabertas?
uns e outros amores bem ou mal-resolvidos,
fotografias impressas em papel couché,
a velha garrafa com dois dedos de rum,
o rótulo carcomido do Carta Oro,
um rabisco amassado, embolorado,
traçado na bolacha da cerveja quente
ou em papel de pão,
marcado pela mão suada e trêmula
do amigo embriagado,
de algum amigo que já não é
– que ainda o seja, oxalá o seja,
ainda mais trêmulo, ainda mais bêbado.
o que ficarão, Deus meu, nestas gavetas silenciosas?
o cachecol ton sur ton do inverno burguês?
as luvas dantes presas em bolsos rotos?
o anel perdido em algum banheiro sujo,
no meio-fio,
no mau tempo,
o dedo a apontar o outro lado da rua?
quantas cadeiras a acomodar estas nádegas quentes, Deus?
quantos papéis impressos,
quantas divagações em transe,
quanta lucidez de se supor em si bemol
– sempre sempre alto e tão longe?
por quais mapas serão pontuados meus passos?
em quais espelhos perder-se-ão tantas faces incrédulas?
em quantas identidades oficiais será nebulizado meu eu?
meu íntimo formatado,
diagramado,
presos nestas gavetas,
no cheiro da madeira?
o que topará o pé nesta quietude
neste espaço sem flashs, nem falas,
guiado pelo som quebrado de uma voz extinta
– supostamente minha?
trechos, disparos, escarros
um exame médico,
uma chapa,
o boletim da escola,
a carta amassada,
o arrependimento,
o descaso,
o riso,
o escárnio,
o que poderia, por Ti, Deus meu,
trazer luz a uma existência de trevas?
No sem fim, uma pergunta:
uma maçã no escuro:
uma vida fragmentada.
maio?
sim, não se deve esquecer:
ainda é tempo de morangos
– em meio a vislumbres, brindaremos.