CANETAS ENGATILHADAS


NO TITLE

 

Naqueles dias, pensava na plenitude dos extremos. Diziam, de tempo em tempo, que fosse quente ou frio, pois o morno se regurgitaria. Era de um quente que flambava dentro, no mesmo calor que em atrito com a frieza de falsa porcelana resultava na aparência tépida. Assim, era pretensamente mediana. A que não era linda, nem feia; nem pobre, nem rica; nem engraçada, nem mordaz; não inteligente a ponto de ser a primeira, mas dificilmente entre os últimos; faltavam-lhe atributos que concedessem adjetivos – ou eram muitas as médias. Era mais um nome na lista. Quase sempre um único, que quase nunca se fazia notar. A voz que não se ouvia, o timbre abafado pela arritmia e o coração sempre na boca. Estava sempre presente, em teoria. Era grave, soturna e seguia mansa, como os mornos se apresentam, em linearidade maçante. Sim, estava no caminho do meio termo e não havia maior ou mais eficiente camuflagem. Escudo. Os músculos ligeiramente palpitantes não se mostravam e, a quem a olhasse, viam-se apenas os olhos de um castanho tão castanho quando se pode receber de herança. O olhar, sempre além. Corpo, um que quase não se tocava, mas a alma em constante ebulição, envolta na polidez e em timidez aflitiva, aquela visão distanciada e o ar blasé – indiferença, disfarce. Defesa. Era pura humanidade – demais à sua própria medida. O perfume masculino, viril, suficiente para encobrir o cheiro do seu medo, a escapar por poros dilatados. O abdômen sempre contraído, a espinha sempre ereta. Tensão. Cavalo de batalhas perdidas a passadas curtas e rápidas, em cascos vacilantes. Os dentes à mostra, mas a tristeza e a melancolia em sobrancelhas arqueadas. Era média: sua classe, seu gênero, sua existência quase limpa, portanto que não era suja - tampouco imaculada. O batom roxo, tantas e tantas vezes em lábios apertados; a sombra púrpura, as pálpebras inquietas – e era apenas uma criança, que ambicionava ser ignorada. Os inúmeros tapas e os socos e os pontapés e os gritos em defesa de sua inegável fragilidade – o corpúsculo em desacordo com seu espírito revolto, encarcerado na mediocridade daquela vida (a que não se escolhe). Entre talentos e inseguranças, a saudade de um tempo que nunca viveu. Ou viveria. E era apenas uma menina. Só. Escondida em cômodos escuros, fuçando gavetas vazias, cheirando mofo, cruzando vias entre pensamentos cruéis. Martirizada, agoniada. E, sobretudo, só. Mas era uma menina. Apenas, em sua aparente trivialidade, contra o resto de um mundo.

 

(KG * Feb/08)



Escrito por Thelma e Louise às 17h13
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